quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Noite escura

Vivi na madrugada dos teus olhos
No cheiro da tua alma, adormecida;
Do jardim do meu peito colhi molhos
De flores, que ofereci à tua vida!

Fizemos tantas juras que a saudade
Nunca iria viver nesta paixão
Na tela deste amor, só liberdade,
A fortes cores pintada p’la ilusão

Porquê, então, há pedras no caminho
e vazio no abraço, sem ternura?
Porquê, amor, me sinto tão sozinho
E só tenho, nos olhos, noite escura?

A pérola

Amanheço
embalada pelo memória
do cheiro do teu corpo,
ninho da minha pérola
que ainda em ti habita.

De areia feita,
sou tormento …
busco em teu chão
o alimento,
germino no silêncio
em anseio por um travo
do sabor da tua boca,
mesmo que coisa pouca,
porque o coração não acredita …

Deixa-me crescer em ti,
ficar brilhante
redonda,
perfeita de beleza,
obra da natureza,
ao seu jeito !

Prometo!
Se não me arrancares
da tua concha
e se me afagares,
prometo que estarei
pronta para me levares
nos caminhos do teu mundo,
companheira do teu peito!

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Para sempre

De mim
já mais não sei
que a noite cai
e traz a solidão …

Da paixão
fluida em minhas veias,
corrente impetuosa
antes sem peias,
sobrou o lusco-fusco,
tarde invernosa
despencada
da manhã quente de verão!

Vou repousar
o meu corpo no lençol
que ainda tem teu corpo
desenhado;
Vou deixar entrar
em mim o sol,
recolher-te em meu olhar
e guardar intacto,
no futuro,
este presente
do passado!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Os velhos - ou a imagem dolorosa da entrada do Serviço de Urgência de um Hospital

Vê-se no espelho da alma
a imagem cansada
da vida já vivida,
perdida,
às vezes encontrada
nas pétalas de uma flor,
num amor,
num devaneio
na chuva que cai,
desamparada,
sobre a terra
que a acolhe no seu seio
morto de sede !

E esse olhar distante
que verte a tristeza
recolhida além daquele espelho,
reflecte o rosto velho
- ficou assim num instante –
de quem gastou a vida
esquecido da arte
de viver …

No abandono,
a solidão;
memórias: talvez sim!
Ou talvez não!
Apenas só um corpo
sem força,
já sem garra
para aproveitar a uva
e afastar a parra
da vinha vindimada do seu ser …

Foi-se o mosto,
o vinho preparado
pelo gosto….

Os olhos apagados,
mudos, cegos,
sentem a falta de apegos;
vivem já na sala ao lado
da vida…
... para morrer!

Elvira Almeida